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Peça 2

A Geometria Oculta do Crescimento

Em janeiro de 2026, a OCDE publicou, Portugal: Insights on productivity based on microdata, analisando a produtividade do trabalho ao nível das empresas entre 2004 e 2022, com base em indicadores MultiProd

O diagnóstico é conhecido: a produtividade permanece abaixo da média da OCDE. Entre 2010 e 2022, o crescimento médio anual situou-se em aproximadamente 1,3%. As melhorias foram relativamente disseminadas entre as empresas, incluindo entre aquelas posicionadas nos segmentos inferiores da distribuição. Ainda assim, as disparidades de produtividade entre as empresas mais e menos eficientes mantêm-se significativas, e a reafetação entre setores desempenha um papel limitado.

O ponto central não é o nível de produtividade; é o padrão.

Quando o crescimento da produtividade é impulsionado sobretudo por melhorias dentro dos próprios setores, e não pela reafetação de recursos para empresas mais eficientes, o sistema revela um ajustamento incremental, e não uma transformação estrutural.

Nas economias de elevado desempenho, o crescimento da produtividade tende a refletir uma combinação de difusão tecnológica, melhoria das práticas de gestão, mobilidade de capital e trabalho para atividades de maior valor acrescentado, e renovação disciplinada através de reestruturação ou saída do mercado. Quando um destes canais de transmissão opera aquém do seu potencial, a dispersão persiste.

A persistência dessa dispersão raramente constitui apenas um fenómeno microeconómico. Frequentemente, traduz fricções sistémicas mais profundas: limiares regulatórios que inibem o crescimento das empresas, constrangimentos financeiros que atrasam o aprofundamento do capital, rigidezes no mercado de trabalho que limitam a mobilidade, ou ambientes de governação que privilegiam a continuidade em detrimento da renovação.

Para conselhos de administração e decisores públicos, esta distinção é determinante. A produtividade não melhora apenas porque as empresas investem, melhora quando os sistemas permitem uma circulação eficiente de recursos e um alinhamento sustentado entre incentivos, regulação e capacidade.

Os microdados revelam algo que os indicadores agregados ocultam: inércia estrutural.

Quando a dispersão se mantém elevada e a reafetação é fraca, o crescimento torna-se dependente da trajetória. As economias expandem-se, mas a sua configuração interna altera-se pouco. Ganhos incrementais acumulam-se sem modificar de forma substantiva a geometria do desempenho.

É neste ponto que a análise ultrapassa os agregados macroeconómicos.

Em sistemas complexos, sejam economias nacionais, redes regionais de saúde ou instituições multissetoriais, o desempenho depende da eficácia com que são identificados os estrangulamentos, corrigidos os desalinhamentos e incorporados mecanismos de renovação nas estruturas de governação. Sem estes ajustamentos corretivos, o subdesempenho é absorvido, e não resolvido.

A análise da OCDE expõe, assim, mais do que uma lacuna de produtividade. Aponta para a qualidade do refinamento sistémico.

A expansão económica não gera, por si só, melhoria estrutural.

Os sistemas evoluem quando os desalinhamentos internos são corrigidos de forma deliberada e quando os mecanismos de coordenação são progressivamente reforçados.

OCDE (2026). Portugal: Insights on productivity based on microdata. Janeiro de 2026.

Leituras estratégicas do presente à luz da capacidade institucional, do desempenho sistémico e da arquitetura de governação.

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