O arquivo deveria ser a memória viva das instituições. Contudo, demasiadas vezes converte-se em escudo contra a mudança. Relatórios, atas e pareceres são invocados não para orientar a ação, mas para encerrar discussões, transformando o papel em substituto da decisão
Eric Ketelaar descreveu os arquivos como “templos e prisões”: lugares de preservação, mas também de ocultação. Hoje, em sistemas de saúde e no setor público europeu, este paradoxo é evidente. Multiplicam-se planos e auditorias que dão aparência de robustez, mas cuja implementação é mínima. O documento preserva-se; a decisão adia-se.
Paradoxalmente, enquanto alguns registos se acumulam até à saturação, outros aqueles que poderiam expor responsabilidades ou orientar reformas, desaparecem. Relatórios extraviados, pareceres não localizados ou bases de dados inacessíveis revelam como o arquivo pode ser seletivo: retém o que convém, apaga o que incomoda. A UNESCO, no programa Memory of the World, sublinha que a perda de documentação crítica constitui uma ameaça direta à transparência e ao futuro da governação.
Assim, o arquivo deixa de ser ferramenta de aprendizagem para se tornar refúgio de inércia. Produz a aparência de ordem, mas oculta a ausência de direção e é nesse vazio que muitas instituições perdem a sua capacidade de decidir.
Fragmentos críticos sobre os silêncios que moldam a tomada de decisões.