Nas instituições, existem funções que deixam de servir o propósito que as originou e passam a existir apenas para garantir a sua própria continuidade. Legitimam-se pela forma, pela repetição ou pelo peso simbólico, mesmo quando já não acrescentam valor efetivo à missão organizacional.
Philip Selznick, em Leadership in Administration (1957), descreveu como organizações podem cristalizar rotinas que se autonomizam da sua finalidade inicial, transformando-se em fins em si mesmas. Michael Power, em The Audit Society(1997), aprofundou esta crítica ao demonstrar como funções de controlo e verificação se multiplicam para legitimar a sua própria necessidade, criando rituais de responsabilização que produzem mais formalidade do que substância. Já David Graeber, em The Utopia of Rules (2015), levou a análise para o campo contemporâneo, mostrando como burocracias modernas geram tarefas “autoalimentadas”, funções que sobrevivem porque ninguém ousa questionar a sua utilidade.
O resultado é paradoxal: internamente, estas funções consomem recursos, bloqueiam a adaptação e geram redundância; externamente, projetam a ilusão de estabilidade e legitimidade, quando na realidade revelam incapacidade de renovação. Ao invés de assegurar resiliência, perpetuam obsolescência — mas disfarçada de indispensabilidade.
A forma mais persistente de fragilidade é a que se apresenta como intocável.
Fragmentos críticos sobre os silêncios que moldam a tomada de decisões.