Em certas estruturas, o cargo deixa de ser um instrumento de execução estratégica e torna-se a recompensa em si. A nomeação ou permanência não decorre de mérito ou resultados, mas de alianças, lealdades ou conveniências internas. O valor da posição passa a residir em seu simbolismo — prestígio, acesso ou imunidade — em vez da função que deveria desempenhar.
Na leitura de Pierre Bourdieu, quando o capital simbólico de um cargo é suficiente para assegurar sua permanência, independentemente da contribuição real, o cargo se transforma em um fim em si mesmo. Dentro da lógica do patrimonialismo, como descrita por Max Weber, esse mecanismo preserva a estrutura existente não por necessidade funcional, mas para proteger interesses já estabelecidos.
A própria OCDE observa que, quando posições-chave são ocupadas por indivíduos que não entregam valor mensurável, a instituição perde capacidade de adaptação e bloqueia a entrada de competências críticas. A distinção entre um cargo concedido por mérito e outro oferecido como uma recompensa fantasma não é meramente conceitual — ela se traduz em diferenças reais de eficiência, legitimidade e impacto estratégico.
Quando um cargo serve apenas para manter interesses, ele deixa de fazer parte da solução e passa a integrar o problema.
Fragmentos críticos sobre os silêncios que moldam a tomada de decisões.